segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Escuta, meu filho, os ensinamentos de teu pai.

Dos Conselhos de Santo Estevão a seu filho

Escuta, meu filho, os ensinamentos de teu pai.


Em primeiro lugar, se desejas honrar o coroa real, recomendo-te, aconselho e exorto, filho muito caro, que guardes a fé católica e apostólica com tanta diligência e cuidado, que te tornes um exemplo para todos os eclesiásticos com razão te denominem o verdadeiro homem da fé cristã, sem a qual, não tenhas dúvidas, não te poderás dizer cristão nem filho da Igreja. No palácio real, depois da fé, a Igreja ocupa o segundo lugar, ela que foi plantada por nosso chefe, o Cristo; em seguida, transportada, solidamente edificada e espalhada pelo universo por seus membros, os apóstolos e santos padres. Embora gerando sempre nova prole, em alguns lugares é considerada antiga.
Em nossa monarquia, filho, ela é ainda jovem e recente; por este motivo precisa de protetores mais precavidos e declarados. Não aconteças que por teu desleixo, preguiça e negligência seja destruído e aniquilado o que a divina clemência nos concedeu sem merecimento de nossa parte.
Meu filho muito querido, doçura do meu coração, esperança da continuidade de nossa linhagem, rogo-te e ordeno que por tudo e em tudo, firmado na piedade, sejas propício não apenas aos parentes e próximos, ou aos príncipes e aos chefes, ou aos ricos ou vizinhos e povo; mas também aos estrangeiros e a todos que o procuram. Pois a prática da compaixão te leva à máxima felicidade. Sê misericordioso para com os oprimidos, guardado sempre no fundo do coração o exemplo do Senhor: Quero a misericórdia e não o sacrifício (Mt 9,13). Sê paciente com todos, não apenas com os poderosos, mas também com os pequeninos.
Sê, enfim, forte para que a prosperidade não te ensoberbeça ou a adversidade não te abata. Sê também humilde para que Deus te eleve agora e no futuro. Sê ainda, modesto, e a ninguém castigues ou condenes em excesso. Sê manso para não faltares à Justiça. Sê fidalgo, de modo a jamais infligir deliberadamente um ultraje a alguém. Sê casto, para evitares, como aguilhão da morte, todo o mau cheiro da luxúria.
Todas estas coisas ditas acima, reunidas, tecem a coroa real, porque sem ela ninguém consegue reinar aqui nem chegar ao reino eterno.

sábado, 15 de agosto de 2009

Assunção de Nossa Senhora

Assunção de Nossa Senhora
Da Constituição Apostólica Munificentíssimus Deus, do papa Pio XII

Teu Corpo é santo e cheio de glória

Nas homilias e orações para o povo na festa da Assunção da Mãe de Deus, santos padres e grandes doutores dela falaram como de uma festa já conhecida e aceita. Com a maior clareza a expuseram; apresentaram seu sentido e conteúdo com profundas razões, colocando especialmente em plena luzo que esta festa tem em vista: não apenas que o corpo morto da Santa Virgem Maria não sofrera corrupção, mas ainda o triunfo que ela alcançou sobre a morte e a sua celeste glorificação, a exemplo de seu Unigênito, Jesus Cristo.
São João Damasceno, entre todos o mais notável pregoeiro desta verdade da tradição, comparando a Assunção em corpo e alma da Mãe de Deus com seus outros dons e privilégios, declarou com vigorosa eloqüência: “Convinha que aquela guardava ilesa a virgindade no parto, conservasse seu corpo,mesmo depois da morte, imune de toda corrupção. Convinha que aquela que trouxera no seio o Criador como criancinha fosse morar nos tabernáculos divinos. Convinha que a esposa, desposada pelo Pai, habitasse na câmara nupcial dos céus. Convinha que, tendo demorado o olhar em seu Filho na Cruz e recebido no peito a espada da dor, ausente no parto, o contemplasse assentada junto do Pai. Convinha que a Mãe de Deus possuísse tudo o que pertence ao Filho e fosse venerada por toda criatura como mãe e serva de Deus”.
São Germano de Constantinopla julgava que o fato de o corpo da Virgem Mãe de Deus estar incorrupto e ser levado ao céu não apenas concordava com sua maternidade divina, mais ainda conforme a peculiar santidade deste corpo virginal: “Tu, está escrito, surges com beleza(Sl. 44,14); e teu corpo virginal é todo santo, todo casto, todo morada de Deus; de tal forma que ele está para sempre bem longe de desfazer-se em pó; imutado, sim, por ser humano, para a excelsa vida da incorruptibilidade. Está vivo e cheio de glória incólume e participante da vida perfeita”.
Outro antiguíssimo escritor assevera: “Portanto, como gloriosa mãe de Cristo, nosso Deus salvador, doador da vida e da imortalidade, foi por ele vivificada para sempre em seu corpo na incorruptibilidade; ele a ergueu do sepulcro e tomou para si, como só ele sabe”.
De modo especial é de lembrar que desde o segundo século, os santos padres apresentam a Virgem Maria qual nova Eva para o novo Adão: intimamente unida a ele – embora com submissão – na mesma luta contra o inimigo infernal (como tinha sido previamente anunciado no proto-evangelho (cf Gn 3,15), luta que iria terminar com a completa vitória sobre o pecado e a morte, coisas que sempre estão juntas nos escritos do Apóstolo das gentes (cf Rm 5 e 6; 1Cor 15,21-26.54-57). Por este motivo, assim como a gloriosa ressurreição de Cristo era parte essencial e o último sinal desta vitória, assim também devia ser incluída a luta da santa Virgem, a mesma que e de seu Filho, pela glorificação do corpo virginal. O mesmo Apostolo dissera: Quanto que é mortal se revestir de imortalidade, então se cumprirá o que foi escrito: a morte foi tragada pela vitória (1Cor 15,54; cf Os 13,14).
Por conseguinte, desde toda a eternidade unida misteriosamente a Jesus Cristo, pelo mesmo designo de predestinação, a augusta Mãe de Deus, imaculada na concepção, virgem inteiramente intacta na divina maternidade, generosa companheira do divino Redentor, que obteve pleno triunfo sobre o pecado e suas conseqüências, ela alcançou ser guardada imune da corrupção do sepulcro, como suprema coroa dos seus privilégios. Semelhante a seu Filho, uma vez vencida a morte, foi levada em corpo e alma à glória celeste, onde, rainha, refulge à direita do seu Filho, o imortal rei dos séculos.

Do zelo apostólico que se deve ter ao procurar a salvação e santificação das almas.

Das cartas de São Maximiliano Maria Kolbe

Do zelo apostólico que se deve ter ao procurar a salvação e santificação das almas.

Muito me alegro, caro irmão, o zelo que te inflama na promoção da glória de Deus. Pois observando com tristeza, em nossos tempos, não só entre os leigos MS também entre os religiosos, a doença quase epidêmica que se chama Indiferentismo, que se propaga de várias formas. Ora, como Deus é digno de infinita glória, nosso primeiro e mais importante ideal deve ser, com nossas exíguas forças, lhe darmos o máximo de glória, embora nunca possamos dar quanto de nós, pobres peregrinos, ele merece.
Como a glória de Deus resplandece principalmente na salvação da almas que Cristo remiu com seu próprio sangue, o desejo mais elevado da vida apostólica será procurar a salvação e santificação do maior número possível. E quero brevemente dizer-te qual o melhor caminho para este fim, isto é, para conseguir a glória divina e a santificação de muitas almas. Deus, ciência e sabedoria infinita, sabendo o que, de nossa parte, mais contribui para aumentar sua glória, manifesta-nos a sua vontade sobretudo pelos seus ministros na terra.
É a obediência, e ela só, que nos índia a vontade de Deus com evidência. O superior pode errar, mas não é possível que nós, ao seguirmos a obediência, sejamos levados ao erro. Só poderia haver uma exceção se o superior mandasse algo que incluísse – mesmo em grau mínimo – uma violação da lei divina; pois, neste caso, o superior não seria fiel intérprete de Deus.
Só Deus é infinito, sapientíssimo, santíssimo e clementíssimo, Senhor, Criador e Pai nosso, princípio e fim, sabedoria, poder e amor; tudo isso é Deus. Tudo que não seja Deus só vale enquanto se refere a ele, criador de tudo e Redentor dos homens, último fim de toda a criação. É ele que nos manifesta a sua adorável vontade por meio daqueles que o representam, e nos atrai a si, querendo, deste modo, atrair por nós outras almas, unindo-as a si em amor cada vez mais perfeito.
Vê, irmão, quão grande é, pela misericórdia divina, a dignidade de nossa condição! Pela obediência com que ultrapassamos os limites de nossa pequenez e conformamo-nos à vontade divina, que nos dirige com sua infinita sabedoria e prudência, a fim de agirmos com retidão. Pode-se até dizer que, seguindo assim a vontade de Deus à qual nenhuma criatura pode resistir, nos tornamos mais fortes que tudo.
Esta é a vereda da sabedoria e da prudência, este é o único caminho pelo qual possamos dar a Deus maior glória. Pois, se existisse caminho diferente e mais alto, certamente Cristo no-lo teria manifestado com sua doutrina e exemplo. Ora, a divina Escritura resumiu a sua longa permanência em Nazaré com estas palavras: E era-lhes submisso (Lc. 2,51), como nos indicou toda a sua vida ulterior sob o signo da obediência, mostrando que desceu à terra para fazer a vontade o Pai.
Amemos por isso, irmãos, amemos sumamente o amantíssimo Pai celeste, e deste amor seja prova a nossa obediência, exercida em grau supremo quando nos exige o sacrifício da própria vontade. Não conhecemos, para progredir no amor de Deus, livro mais sublime que Jesus Cristo Crucificado.
Tudo isso conseguiremos mais facilmente pela Virgem Imaculada, a quem a bondade de Deus confiou os tesouros da sua misericórdia. Pois não há dúvida que a vontade de Maria seja para nós a própria vontade de Deus. E, quando nos dedicamos a ela, tornamo-nos em suas mãos como instrumentos, como ela própria, nas mãos de Deus. Portanto, deixemo-nos dirigir por ela, ser conduzidos por ela, e sejamos calmos e seguros para ela guiados: pois cuidará de nós, tudo proverá e há de socorrer-nos prontamente nas necessidades do corpo e da alma, afastando nossas dificuldades e angustias.

Fé inexpugnável

Das cartas de São Cipriano, Bispo e mártir.

Fé inexpugnável

Com que louvores proclamarei, irmãos fortíssimos, o vigor de vosso peito, a perseverança da fé, e com que elogio os exaltarei! Tolerastes duríssima tortura até a consumação na glória. Não cedestes aos suplícios, foram antes os suplícios que cederam diante de vós. As coroas deram fim às dores que os tormentos não devam. Os maiores dilaceramentos duram muito tempo, não para lançar abaixo a fé, mas para enviar mais depressa ao Senhor os homens de Deus.
A multidão presente viu, admirada, o celeste combate de Deus e a luta espiritual de Cristo. Viu seus servos que perseveram, com a palavra livre, com a mente incorrupta, armado com as armas da fé. Os torturados mantinham-se mais fortes do que os torturadores; os membros açoitados e dilacerados venceram os ferrões dos acoitadores e dilaceradores.
Os golpes furiosos, longamente repetidos, não conseguiram superar a fé inexpugnável. Embora suas vísceras estivem arrebentadas, já não eram os membros destes servos de Deus que eram torturados, mas as chagas. Corria sangue que iria extinguir o incêndio da perseguição; o glorioso sangue derramado que apagaria a chama e o fogo da Geena. Oh! Que espetáculo foi este para o Senhor, que sublime, quão grande, de quanto apreço aos olhos de Deus, pelo juramento e consagração de seu soldado! Tal como está escrito nos salmos, que nos falam e exortam pelo Espírito Santo: Preciosa aos olhos de Deus a morte de seus justos (Sl 115,15). Preciosa a morte que compra a imortalidade ao preço de seu sangue, que recebe a coroa de Deus pela perfeição da virtude.
Qual livre ali estava cristo, com que satisfação lutou e venceu em tais servos seus, ele, o protetor da fé, que dá aos crentes tanto quanto quem recebe crê poder comportar. Esteve presente em seu combate, levantou, fortaleceu, animou os lutadores e as testemunhas de seu nome. Aquele que m vez venceu a morte em nosso lugar, sempre vence em nós.
Ó feliz Igreja nossa, iluminada pela honra da divina condescendência, que em nossos tempos o glorioso sangue dos mártires ilustra. Antes, alva pelas boas obras dos irmãos, faz-se agora purpúrea pelo sangue dos mártires. Entre suas flores não faltam nem os lírios nem as rosas. Lute cada um agora pela magnífica dignidade de ambas as honras. Ganhem coroas alvas pelas boas obras ou vermelhas pelo martírio.